quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Percepções do Grupo por Maria Rita Sodré

Percepções do grupo (Maria Rita Sodré)

Nos últimos meses, viemos descobrindo e explorando maneiras de criação e  potencializando estados dentro do universo do Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. A leitura e a imersão deste mundo têm trazido descobertas e começado a apontar alguns caminhos a se seguir como norte da pesquisa a qual nos propusemos.
Acredito que em meio a todos os experimentos, as questões das referências externas e interiores de cada ator se mostram um dos importantes alicerces no trabalho. Tanto a discussão de diferentes leituras e pontos de vista, como a alimentação constante de arte para preencher o “hospício” de imagens  sustentáveis. Com certeza, a transposição das referências para o trabalho em si ainda pode ser considerada desafiante, mas semana a semana creio que o grupo se aproxima mais de um caminho onde o fluxo de referências de dentro e de fora da obra trabalhada dialoga com clareza.
Outro ponto que vem se tornando fundamental dentro do processo é  a investigação de certas trajetórias individuais por parte de cada ator: a mãe, o velho, a menina, a noiva... A cada encontro ampliamos e mudamos o horizonte dos contos, mas a espinha dorsal do trabalho de cada ator tem se desenvolvido e se alimentado de uma mesma fonte.
Pouco a pouco também conseguimos começar a estabelecer um ritual de trabalho como grupo. A percepção do espaço, a leitura e trabalho de mesa do conto, o aquecimento e exercícios de consciência corporal, a preparação para o “hospício”, o “hospício’ e as reflexões finais. A conexão e dinâmica dentro do espaço criativo também começam a se estabelecer dia após dia.

Percepções individuais

No meu trabalho individual de pesquisa de ator, posso apontar alguns caminhos percorridos e já estabelecidos, dificuldades e metas. A base da investigação dentro do hospício tem tomado como base fundamentalmente a imagem da mãe – da mulher que foi abandonada. Mesmo transitando vez ou outra pelo estado e atmosfera infantil (e verticalizando nela a vivência da criança), a figura da mãe abandonada pelo homem é a que mais vem sendo construída e pesquisada. Alguns “lugares” já percorridos foram: a mãe grávida do homem que já morreu, o luto nauseante, o grito preso do abandono, mulher sexualizada/infantilizada, o bicho preso  da solidão que corroeu a mulher. 
Como referência externa imagética, tenho estudado algumas imagens de Picasso, Goya, Monet e, na última semana, Rembraut; mas ainda sinto uma grande dificuldade em transportá-las de forma fluída e consistente para dentro do espaço de criação. A pesquisa da voz também tem sido uma busca desafiadora e que ainda não atingi - propor um registro vocal que saia do cotidiano e que ao mesmo tempo crie uma oposição interessante com o corpo e o estado vigentes.
Percebi também a importância de uma partitura ritualística para o espaço criativo do hospício. Nos últimos encontros tenho buscado aprimorar essa disciplina para potencializar a capacidade de criação: primeiro um entendimento das imagens surgidas a parir do que foi lido, a forma como essas imagens ressoam corporalmente depois do aquecimento corporal e vocal, a percepção do espaço do círculo e do externo do hospício (cheiro, som, temperatura, objetos, ar), a percepção do estado do  ator e a transposição do estado do ator para o estado do conto investigado ( seguindo a “espinha dorsal” da pesquisa: a mãe abandonada)  

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